Ciber-cultura: uma discussão sobre as implicações culturais da cibermídia e do ciberespaço

O termo ciberespaço como nos relata Adriana de Souza e Silva (2006, p. 21) foi cunhado pelo escritor alemão William Gibson a partir de dois conceitos que já existiam: cibernética e espaço. O conceito fora criado pelo autor para descrever um espaço de informação. Para Gibson, conforme a autora, o ciberespaço se constitui em um espaço imaterial por onde trafega uma determinada informação, mas que independe de uma conexão de sentidos, ou seja, não necessita obrigatoriamente que se faça uso efetivo dessa informação no mundo real/material.

É possivelmente essa desconexão entre real/material e virtual que está presente quando se fala em cibermídia. Denise Correa Araújo usa o termo cibermídia na concepção de Mindy McAdams, o que significa dizer que a cibermídia não exige uma experiência de “imersão” do usuário. A percepção do espaço físico é constante enquanto se utiliza do espaço “virtual” oferecido pela internet.

A partir do uso de tal conceituação, e considerando então cibermídia como o conjunto de mídias digitais existentes, a autora compara a estrutura de rizoma, proposta por Deleuze e Guatari, com a estrutura da rede. Tal comparação surge pelo fato de o rizoma ser pensado como uma estrutura que não tem pontos fixos, nem segue caminhos determinados. Como uma rede de neurônios, pode expandir-se para quaisquer pontos, e não apresenta um centro fixo: poderíamos dizer que é uma estrutura policêntrica. A rede, como sabemos, não apresenta também um centro: é uma estrutura que não segue nenhum tipo de hierarquização, e o usuário pode ir para “onde” quiser, e de um lugar irá para outros sem seguir a nenhuma lógica racional. Podem surgir centros, sites de mais acesso, como podem extinguir-se rapidamente. Podem surgir ainda novos pontos, o que reflete a idéia da expansão do rizoma, assim como podem desaparecer muitos pontos.

Araújo percebe então que a cibermídia, com sua estrutura rizomática, toma a forma de uma cidade digital. Não uma cidade simplesmente, mas uma hipertrópole. O conteúdo oferecido nos diferentes espaços virtuais pode ser comparado com os espaços de uma cidade: podemos fazer compras, serviço de bancos, conhecer pessoas, manter relações sociais, visitar lugares, dentre inúmeras outras possibilidades. Assim, essa suposta hipertópole digital acaba por substituir, para muitos, a cidade real. E além disso, invade a cidade real, já que para sua existência é necessária toda uma estrutura física como cabos de alimentação para a rede e para a energia, computadores. Como falávamos acima, a cibermídia não exige a experiência de imersão, percebe-se a estrutura física quando da navegação. O usuário da rede precisa de um computador, precisa de uma interface. E com a importância adquirida pela rede, mesmo os espaços comuns de sociabilidade da cidade real recebem a presença das máquinas, como acontece, por exemplo em cyber cafés. É uma mudança cultural, que diz respeito às nossas práticas com a internet e com as possibilidades que a cidade digital nos oferece.

Mas se essa experiência de cibermídia permite que saibamos distinguir entre o físico e o digital, Adriana de Souza e Silva traz um novo problema para a reflexão. Em alguns países, e principalmente no Japão, a tecnologia celular desenvolveu-se de maneira muito mais aprofundada do que no Brasil. Os aparelhos chamados de terceira geração permitem, como já acontece mesmo aqui, o uso da internet. Mas aliado a isso, há também o uso de tecnologias de posicionamento. A experiência de sentar-se em frente a um computador e estar conectado, quase deixa de existir, e as pessoas passam a estar conectadas constantemente, através de seu aparelho celular. Parece ser um tanto difícil compreendermos tal relação quando usamos o celular principalmente para a comunicação oral, em ligações, e quando o serviço de internet por celular é ainda oneroso para a maioria das pessoas. Mas se fizermos um esforço poderemos pensar em pessoas usando o celular muito menos para fazer ligações, e mais para outras funções que envolvem o uso da rede. É neste contexto, e com a possibilidade gerada pelas tecnologias de posicionamento, que usuários da internet por celular participam de jogos em que o tabuleiro do jogo é a própria cidade, e em que eles são os personagens.

Souza e Silva nos fala então em um espaço híbrido. A experiência de cibermídia de que nos falava Araújo já não cabe mais aqui, neste espaço em que não se distingue mais o real e o virtual. Nas palavras de Souza e Silva, “eliminando a distinção tradicional entre espaços físicos e digitais, um espaço híbrido ocorre quando não mais se precisa ‘sair’ do espaço físico pra entrar em contato com ambientes digitais”. (op. cit, p. 28). Mas um espaço híbrido não se trata apenas dessa pretensa “união” entre o físico e o digital. Práticas culturais que surgem nessa nova possibilidade de espaço, que agrega o físico e o digital, produzem também uma mudança cultural, e aí os sujeitos passam a perceber de maneira diferente tanto o que já conheciam como físico e também aquilo que conheciam como digital.

E essa mudança cultural, aliás, nos parece ser uma questão central na discussão de comunicação e tecnologias. Os sujeitos passam a perceber e a vivenciar de maneira diferente o que conheciam como real e como “virtual”. Mas isso tudo porque interagem com o sistema, conectam-se e mudam suas práticas. Pessoas que participam de jogos móveis, certamente, verão sua cidade de uma maneira diferente. Mas mesmo para nós, que ainda não temos contato com tecnologias tão avançadas, podemos perceber mudanças a partir de nossas experiências com um ambiente que ainda não é tão híbrido. O contato, ainda que através de interfaces físicas, com conteúdos disponibilizados na internet, muda também nossa percepção. E a mudança cultural altera nossas ações inclusive na maneira de participar de determinados processos aos quais antes a possibilidade de acesso era remota. (É possível hoje, só para citar um exemplo, observar as estrelas sem ter um telescópio, através do Google Sky.)

 

Esse texto foi produzido para a disciplina de Seminário I, no 2º sem/2007. Queremos discutir as implicações da cibermídia e do ciberespaço na transformação da cultura. Participe dando seu comentário!

Cândida de Oliveira e Lara Nasi

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